Uma jornada íntima através do silêncio, da presença e da fé sem fronteiras na virada do ano
Capítulo I
O Peso da Ausência
Eu não fui à vigília. E isso me pesou.
Durante o dia, observei meu pai preparar-se para a peça com uma dedicação que me comoveu profundamente. Não era obrigação. Era entrega pura, zelo genuíno. Era alguém que verdadeiramente acredita no que faz. Vi Cristine arrumar-se como quem entra na presença de um rei - cada detalhe, cada gesto carregava honra.
Por anos, a virada sempre foi assim: igreja, oração, entrega, gratidão. Um ritual quase de sobrevivência. Mas dessa vez, algo em mim resistia.
"Não era rejeição à fé. Era excesso. Barulho demais. Gente demais. Minha alma pedia silêncio."
A Linguagem do Silêncio
O dia foi passando em movimentos lentos. Cochilei. Acordei tarde. Alimentei o corpo mecanicamente. O relógio avançava, mas eu só sabia de uma certeza absoluta: precisava ouvir Oceans.
Não era música no sentido comum. Era a única linguagem que ainda conseguia me alcançar no lugar onde eu realmente estava. Em algum momento, pensei em ligar para alguém, preencher o vazio com vozes familiares. Mas percebi que seria apenas fuga não estava alinhado com o que meu espírito verdadeiramente pedia.
O Plano Original
Cinco minutos de gratidão consciente ao final do ano
A Intenção
Atravessar para o novo ano ainda envolto nesse sentimento
A Oferta
Gratidão como presente ao divino
Cinco Minutos Antes
Quando os Joelhos Dobram
Cinco minutos antes da meia-noite, dobrei os joelhos. Como não fazia há muito tempo. Meu rosto encontrou o chão não por culpa, mas por esgotamento e verdade absoluta. Entrei na presença de Deus sem discurso, sem roteiro, sem nada preparado.
Minhas únicas palavras foram um quase silêncio. Tinha planejado oferecer gratidão, mas percebi que não havia nada nas minhas mãos. Nem palavras organizadas. Nem sentimentos que conseguisse nomear. Tentei conscientemente listar tudo pelo qual era grato naquele ano. Tentei preencher o coração com lembranças boas.
Foi exatamente quando tentei organizar a gratidão que tudo se dissolveu. A busca por sentimentos encontrou apenas anestesia. Todos os sentimentos terrenos tinham sido quebrados e já não podia senti-los.
O Choro Inexprimível
E então o choro veio. Sem pedir licença. Sem esforço. Sem explicação possível.
As lágrimas começaram a cair como se não precisassem da minha permissão. Não era um choro emocional comum era profundo, silencioso, absolutamente inexprimível. Um choro que não nascia do pensamento, mas de um lugar mais fundo que qualquer tentativa de gratidão.
Foi ali que virei para Ele e disse, com tudo o que eu era naquele instante:
Eu não tenho nada pra te oferecer.
Não como quem se desculpa
Mas como quem finalmente para de fingir que tem
Não era falta de fé. Era excesso de verdade. Quando disse isso, algo mudou visceralmente. Não foi um pensamento novo nem alívio imediato. Não foi resposta em palavras articuladas.
Foi como se o ar tivesse ficado mais denso dentro de mim. Sempre ouvi que um coração quebrantado move o coração de Deus. Naquele instante, compreendi isso sem precisar formular fé em frases elegantes.
Memória
O Balcão do Aeroporto
O Momento no Aeroporto
No final daquela travessia física, cheguei ao balcão de check-in e não consegui falar. As lágrimas tomaram o lugar da linguagem. E ainda assim, ela entendeu. Foi presente. Acolheu.
O Mundo se Move
A partir daquele silêncio chorado, o mundo começou a se mover para me ajudar. Algo se destrancou através da vulnerabilidade pura.
O Balcão dos Céus
Ajoelhado, senti que a mesma coisa acontecia agora na esfera espiritual. Tinha chegado diante do Santo dos Santos, e novamente não conseguia me pronunciar.
Presença Quebrada e Verdadeira
Eu não tinha palavras. Não tinha gratidão organizada. Não tinha pedidos estruturados. Só presença quebrada e absolutamente verdadeira.
E assim como naquele aeroporto, senti que o silêncio foi compreendido. Não houve voz audível. Não houve explicação racional. Mas houve movimento palpável.
Foi como sentir, por dentro, o véu do trono se rasgar. Não diante de mim, em espetáculo visual, mas em mim, transformando a própria estrutura da minha presença.
Meia-Noite
Spirit Lead Me
Na hora exata da virada, quando vi os fogos começarem lá fora através da janela, tocou aquele verso que me define:
Spirit lead me where my trust is without borders.
Não soou como música. Soou como espelho perfeito da minha alma naquele instante.
Sem fronteiras internas
Despido de todo controle e performance
Sem força própria
Apenas presença vulnerável e real
Só presente
No sentido mais profundo da palavra
Atravessar a Porta por Dentro
Fiquei ali até cinco minutos depois da meia-noite. Levantei diferente. Não mais leve em euforia superficial. Não transformado em êxtase. Mas verdadeiro. Como quem atravessou uma porta por dentro e agora habita outro espaço interno.
Depois veio o peso familiar. A dúvida. A pergunta atrasada da mente analítica: será que fiz a escolha certa de não ir à vigília?
Mas meu corpo sabia antes da minha cabeça formular a resposta. A única mensagem que consegui enviar foi para minha família. Simples, sem brilho artificial, sem promessa vazia:
Que este ano não seja apenas um ano. Que seja propósito. Testemunho. Aliança. Presença.
Sincronicidade
Caminhos Diferentes, Mesmo Lugar
E então veio o sincronismo que validou tudo. Cristine respondeu chorando também. Falou de gratidão profunda. Falou do cuidado meticuloso de Deus. Falou da família como a coisa mais importante.
Nós não combinamos o tom. Não alinhamos discurso previamente. E ainda assim, chegamos ao mesmo lugar espiritual por caminhos completamente diferentes.
Ali entendi algo que ficou gravado em mim como verdade permanente.
Profundo Demais Para Frases
1
O Vazio Aparente
Às vezes acho que estou vazio porque não consigo agradecer direito, formular gratidão em palavras eloquentes
A Profundidade Real
Mas talvez eu esteja apenas profundo demais para transformar o que genuinamente sinto em frases prontas
A Presença Verdadeira
Às vezes acho que faltei na vigília. Mas eu não faltei. Só entrei no lugar onde não existe barulho, explicação ou performance
Uma Fé Sem Maquiagem
Se alguém me perguntar o que pedi naquela virada, respondo sem vergonha alguma: eu não pedi nada. Eu só ofereci presença pura.
Uma Fé Ajoelhada
Que não se levanta para impressionar, mas permanece no lugar da verdade
Uma Fé Sem Performance
Que não tenta convencer ninguém de sua autenticidade
Uma Fé Que Apenas Diz
Eu estou aqui. Fica comigo também.
E hoje acredito firmemente que isso é uma forma raríssima de fé. Uma fé despida. Uma fé que não precisa se adornar para ser aceita.
Oceans (Where Feet May Fail)
A Música Que Me Alcançou
Criada em referência a Mateus 14:22-32, onde Jesus chama Pedro para dar um passo de fé sobre as águas. Esta canção venceu vários prêmios no 45º GMA Dove Awards anual.
Tu me chamas sobre as águas / O grande desconhecido onde os pés podem falhar / E ali Te encontro no mistério / Nos oceanos profundos, minha fé permanecerá
Espírito, guia-me onde minha confiança está sem fronteiras / Deixa-me caminhar sobre as águas onde quer que Tu me chames / Leva-me mais fundo do que meus pés poderiam vagar / E minha fé será fortalecida na presença do meu Salvador
Versículos Principais
Your grace abounds in deepest waters
Where feet may fail and fear surrounds me
You've never failed and You won't start now
When oceans rise, my soul will rest in Your embrace
De algum jeito que não sei explicar racionalmente, que não posso provar empiricamente, que transcende toda lógica humana Ele ficou.
No lugar onde não existe barulho ensurdecedor, onde não existe explicação que satisfaça a mente, onde não existe performance que impressione Deus não pede palavras bonitas e elaboradas.
Ele só pede que a gente fique.
E eu fiquei. Na presença quebrada. No silêncio inexprimível. Na fé sem fronteiras. Na vigília que aconteceu dentro de mim talvez a mais real que já experimentei.
Uma jornada através do silêncio sagrado e da presença verdadeira na virada do ano